Sobre marés
mas não necessariamente sobre mar
Em julho de 2019, viajei para um N Design da vida em São Luís, no Maranhão. Eu acreditava que iria com meus amigos, mas falhei na comunicação com a galera. Na época, eu estava trabalhando igual a uma vagabunda, comprei as passagens supondo que geral iria. Mas, na real, todo mundo tava duro e desistiu da viagem. Não bastando isso, eu me lesionei algumas semanas antes do evento. Era uma viagem que tinha tudo para dar errado. Iria sozinha, com o tornozelo fudido, sem conseguir andar direito. E, ainda assim, foi a melhor viagem da minha vida.
Estar praticamente do outro lado do país, sem a segurança de pessoas conhecidas, me colocou numa posição inédita. Pela primeira vez, eu estava ali porque eu tinha escolhido estar. Eu não conhecia direito o lugar, não conhecia quase ninguém, não tinha roteiro compartilhado, nem combinados prévios. Eu ia aos lugares porque queria ir. Parava porque queria parar. Voltava porque queria voltar.
Foi a primeira vez que pude, de fato, ser eu mesma.
Isso me apresentou a sensação de existir como indivíduo. Não como alguém reagindo ao desejo do outro, acompanhando, cedendo ou se adaptando. Mas como alguém que decide. Que sustenta o próprio querer. E isso era algo que eu nunca tinha experimentado antes. Naquela viagem foi a primeira vez em que assumi as rédeas da minha vida de maneira concreta, no corpo, no tempo e no espaço.
O fato de eu estar com o tornozelo machucado me colocava limites físicos reais. Mas ainda assim, vivi tudo com intensidade. Participei do evento, fiz amigos, me apaixonei. Fiz viagens dentro da viagem. E ainda conheci os Lençóis Maranhenses, um dos lugares mais impressionantes que já vi na vida.
E por mais que eu tenha vivido momentos e experiências incríveis, uma das coisas mais fantásticas da viagem foi observar as mudanças de maré da Ilha.
Do lugar onde eu estava hospedada até onde rolavam as atividades, eu atravessava uma ponte todos os dias. Às vezes, tinha água embaixo. Outras vezes, só chão seco. Cheguei a achar que era cansaço ou coisa da minha cabeça. Até descobrir que não: o Rio Anil tem uma das maiores variações de maré do Brasil. Em cerca de 6 em 6 horas, o nível da água muda completamente, podendo passar de menos de 1 metro para mais de 6 metros de altura. Ou seja: a paisagem realmente se transforma.
Como uma pessoa fissurada no mar, eu não tinha como deixar de perceber isso. E nem de me perguntar: como se navega quando não há água suficiente? Como se planeja saídas e chegadas sabendo que, em poucas horas, tudo aquilo vai mudar?
Hoje percebo que algumas dessas questões não dizem respeito apenas sobre o mar, mas também sobre a minha vida. Ultimamente tenho mais noção que vivo momentos de altas e baixas.
Em alguns momentos, tudo flui. Sou capaz de tudo. Tenho ânimo para tudo. Acredito em todos os meus sonhos, ou apenas no meu potencial de realizar tarefas. Condições favoráveis, navegação tranquila. Tudo a contento. Mas, em outras vezes, sinto como se a água sumisse. E, nesses momentos, eu não sei navegar. Não porque eu não queira. Mas porque eu não consigo. Não há água suficiente para sustentar o movimento. E, ultimamente, tenho vivido muitos períodos assim.
Sabemos que hoje eu conheço uma palavra que nomeia isso: bipolaridade. Investigá-la tem sido difícil. Especialmente porque existem períodos muito bons, em que eu estou viva, produtiva, criativa, inteira. Nesses momentos, eu tenho ideias grandes, projetos ambiciosos, planos que fazem sentido. Eu sinto que mereço viver bem. Que posso contemplar o agora. Que tudo é possível. Mas, logo depois, porém, a maré recua rápido demais. Como em São Luís. Maré alta. Maré baixa. Tudo muito próximo. Tudo muito intenso.
E nesse intervalo curto entre um estado e outro que a vida prática cobra seu preço.
Tenho encontrado uma dificuldade crescente de sustentar um modelo de trabalho, de negócio ou de existência que seja viável. Algo que me gere renda, autonomia, estabilidade suficiente para viver a vida que eu sei que me faz bem. O conflito é quase sempre o mesmo: aquilo que o mundo pede não combina com a forma como eu opero. Com meus ritmos. Com a maneira como minha cabeça funciona.
Isso tem ficado ainda mais escancarado. O mercado em que eu estava acostumada a trabalhar se tornou mais saturado. Ao mesmo tempo, atravessei separações, mudanças abruptas, demissões, instabilidade profissional. Sonhos interrompidos. Projetos que não avançam. Pequenas e grandes rupturas que sensibilizam ainda mais um cérebro que já é, por natureza, sensível.
Quando a maré está alta, tudo isso parece administrável. Eu acredito em mim. Vejo caminhos. Tenho energia para criar soluções, desenhar futuros, sustentar ideias. Mas quando a maré baixa, a realidade finca os dois pés no chão e eu não entendo como existir nesse mundo sendo tão bagunçada do jeito que sou. E não é falta de vontade. Não é falta de sonho.
Então, ser eu mesma é ambíguo. Libertador quando há água suficiente para sustentar meus movimentos. Doloroso quando essa mesma identidade encontra um mundo que exige constância, previsibilidade e linearidade. E extremamente cruel quando eu preciso me dopar todas as noites para conseguir existir,
Eu realmente não sei como fechar essa conta. Não sei qual forma de vida me comporta. Não sei qual modelo de trabalho me sustenta. Não sei como garantir autonomia quando a minha energia não é constante.
Então, me pergunto como as embarcações operam quando a maré baixa? O que se faz quando a água some e o chão aparece? Como se navega sem água? Como existir quando o corpo e a mente não acompanham o ritmo do mundo?
O problema sou eu? Ou o mundo que só foi desenhado para quem não varia? É possível adaptar a vida às minhas marés? Ou eu vou passar a vida inteira tentando me adaptar a estruturas que não me comportam?
Como sustentar meus desejos sem me exaurir? Como ter projetos sem me perder neles? Como viver sem precisar me consertar o tempo todo?
Eu não tenho respostas para nada disso.



